Corredores da Loucura - Parte 1

Corredores da Loucura - Parte 1

Domingo, 7 de agosto de 1949, 11h - É estranho pensar que mais de um ano de investigações tenha nos trazido até o manicômio de Arkham… Especialmente se for levado em conta que, para qualquer observador que não conheça nossa história, estamos chegando aqui como pacientes.

O Ford F1 para em frente aos portões do renomado hospício, onde uma equipe aguarda nossa chegada. Finalmente o condutor para de falar. Sinto que sei mais sobre a vida daquele homem do que sobre minha própria, pois o mesmo não fechou a boca por um segundo durante todo o percurso desde as minas de carvão.

Somos conduzidos para fora da ambulância por dois enfermeiros homens de grande constituição. Notando que não oferecemos resistência, e provavelmente sabendo que nos entregamos por escolha própria à tutela do Dr. Walter Freeman, somos tratados com alguma dignidade.

Vejo quem me parece ser a enfermeira-chefe agradecendo ao motorista e seu parceiro, e o carro (Siebert, como o motorista o chamava) parte pela estrada de terra enquanto o motorista nos acena e deseja boa sorte num tom muito mais feliz do que o apropriado à ocasião.

A enfermeira-chefe se aproxima de nós. Ela é uma mulher de baixa estatura, loira e, me permito dizer, um tanto acima do peso.

Se não soubesse pelas minhas pesquisas que a srta Weyer sempre vivera uma vida acadêmica e já estivesse com o Dr. Freeman há 3 décadas, razáo pelo qual suponho que nunca tenha se casado, eu poderia jurar que ela servira na Segunda Grande Guerra, cujos efeitos políticos ainda estavam se desdobrando.

Ela possuía um olhar extremamente distante, algo que só se vê nos soldados que passaram pelos eventos mais traumatizantes. Imediatamente me vem à mente o quadro de Tom Lea que ajudou a cunhar o termo “olhar de duas mil jardas”. Mas havia algo a mais. Normalmente, esse olhar vem acompanhado de um semblante cansado e amedrontado. No caso dela, o olhar contrastava perturbadoramente com uma face rígida como rocha, um rosto ao mesmo tempo enojado e com raiva, e essa parecia ser sua face neutra.

– Os senhrores optarram por vir aqui para se tratarr com o Doutorr Freeman. Alucinacões, me disserram. – disse a srta Weyer, num sotaque alemão fortíssimo e um soluço.

– Sim, durante os últimos dias vimos nas minas eventos que não podemos explicar, então viemos buscar ajuda. Sou o professor Doutor Richar…

– O único doutorr aqui é o Dr. Freeman, o senhor não tem qualquer autoridade durante o seu tratamento – interrompeu a mulher, soluçando novamente.

– Muito bem, sou Richard Nichols – meu companheiro de ambulância, o professor Nichols, era um renomado funcionário da Universidade Miskatonic, e curiosamente topara meu plano insano. Talvez estarmos no manicômio fosse apropriado, afinal.

– E eu sou…

– Eu sei quem você é – interrompeu novamente a enfermeira – Arcturrus Goodman, o policial. O senhror esteve em muitas manchetes nos jorrnais, recentemente.

– Arcturus, sim. E de fato, vi no último ano mais coisas do que em toda minha longa carreira. Coisas… que prefiro esquecer.

– Eu sou Frida Weyer, enfermeira-chefe deste hospital. Venham, vou apressentarr a vocês a instituição.

Somos guiados pelos corredores do hospital, onde Frida nos mostra os principais locais, como o refeitório, os banheiros e a sala comum, bem como nossos aposentos. Felizmente, o professor Nichols e eu somos colocados no mesmo quarto.

O quarto é relativamente amplo, com duas camas de metal em cantos opostos, dois armários velhos de madeira e um par de cadeiras próximos à mesa diante da porta. O chão é de uma madeira velha e gasta, mas no geral tudo é muito melhor do que eu imaginei que seria.

– Trroquem suas rroupas – gesticulou Weyer, apontando para roupas azuis em cima da cama e para um biombo gasto – Os senhorres estào agora sob nossa custódia, e só poderrão sair daqui quando receberem alta ou quando aqueles que nomearram como seus guardiões vierrem retirrá-los. Agorra vamos, aprontem-se logo, virrão buscá-los em brreve para começarmos o tratamento.

Apos soluçar de novo, a srta Weyer saiu, batendo a porta atrás de si. Pela fresta, podemos perceber que os dois enfermeiros estão prostrados do lado de fora, montando guarda.

– Essa mulher parece um sapo irritado, ou é apenas impressão minha?

– Sou obrigado a concordar, Arcturus. – disse Nichols, abafando o riso.

O dia prossegue sem maiores incidentes. Somos apresentados aos funcionários que cuidarão para que sejamos tratados, conhecemos um pouco mais das instalações e fazemos algumas daqueles entediantes atividades em grupo com os outros pacientes, que visivelmente sofrem de males muito maiores do que nós. Todos parecem assustados, alguns muito distantes.

Um homem jovem, de cabelos negros bagunçados, não parava de repetir algo como “Amite comerá meu coração, Amite comerá meu coração, Amite comerá meu coração”. Uma menina, devendo ter no máximo 16 anos, se coça incessantemente, seus bracos estão todos em carne viva. Ninguém parece se importar.

Apesar de nossos insistentes pedidos, o Dr. Freeman não pode nos ver hoje.

Nos recolhemos aos nossos aposentos ao toque de recolher, 22h.

– Você viu o estado daqueles pobres coitados? Precisamos terminar rápido com isso.

– Sim… e aquela menina, seus bracos em carne viva… morrerá com uma infecção antes que esse lugar possa enlouquecê-la de vez – digo, tirando os sapatos. – E o rapaz que não parava de repetir Amite, Amiti, Hamate… sei lá que diabos. Dizia que teria seu coração devorado.

– Ammit… me lembro desse nome… Lembro de ter ido entregar um livro que o professor Massad, de cultura egípicia, havia me emprestado. Cheguei no meio de sua aula e ouvi um trecho dela enquanto aguardava. Se bem me lembro, Ammit era o bichinho de estimação de Osíris, uma mistura de crocodilo com leão ou qualquer merda assim, devorava o coração daqueles que não se provavam puros diante da pena de Ma’at.

– Não sou culto como você, meu caro, mas sei reconhecer uma pessoa perturbada quando vejo uma.

– Como bem sabemos, este maldito infeliz utiliza esses velhos mitos para perturbar essas almas inocentes. Tremo só de pensar na tortura pela qual eles passam.

– Eu sei, juntaremos as evidencias o mais rápido possível. Vamos pegar esse desgraçado, Nichols. – comento para meu colega, enquanto me troco atrás do biombo.

– Certo como o coaxar daquela mulher sapo, meu amigo…

Cansados, vamos dormir sem muito mais conversa.